3 de dezembro de 2007

Sobre medos e desaparecimentos

A leitura das leituras de O desaparecimento de Honoré Subrac (Guillaume Apollinaire) sugere que deixar de falar dos desaparecimentos instala um silêncio-barulho na gente. Penso que A cidade adormecida, fantasticamente desaparecia de si, se fez por medo. Já Subrac, esse nosso honorário parceiro, por medo, inventou um modo de desaparecer nas coisas e assim, permanecer aparecido.
Nem todo desaparecimento permanece, mas as vezes um desaparecido aparece e permanece numa memória recorrente, prestando um prazeroso serviço à vida. É como se esse desaparecimento fosse uma espécie de bálsamo da eternidade, que faz desaparecer e aparecer por brincadeira.
Uma opinião: acho que a diferença desses dois modos de desaparecimento está na maneira como eles se relacionam com o medo. Quando se força o desaparecimento do medo, ele por vingança apaga o mimetismo do medroso. Esse, sem graça, passa a figurar como um ser-sem-medo ou alguém supostamente confiante, corajoso e motivado. Aquele que acredita em si e sustenta a coragem do último dos moicanos (índio brasileiro não tem esse tipo de coragem).
Bom, já quando o medroso desconfia da coragem que possui, arranja um jeito de inventar uma outra coragem. No caso, a coragem de perder a forma de um si-estático, a coragem de quem sabe da imensidão do mundo e que a vida não precisa ser um olho no olho, entre quatro paredes.
E quem quiser, que conte outra!
Abraço!

5 comentários:

Juaum disse...

talvez esse jogo de esconde-esconde faça mesmo parte do existir sem ter delimitar duas vias que nunca se tocam, a do aparecimento e da omissão de si.
será que pode haver mesmo essa possibilidade do ser completamente aparecido?? ou mesmo desaparecido??
abraços.

Guilherme Yamada disse...

Fiquei intrigado com este "desaparecer, mas permanecer aparecido". É realmente curioso como uma tentativa de mimetização às vezes termina atraindo atenção e, por outro lado, uma tentativa de se destacar passa despercebida.

Acredito também que além do medo, o aparecimento/desaparecimento está relacionado com a pessoa que observa. Ou seja, de quem você quer se esconder e/ou para quem você quer aparecer.
Não sei se repeti demais, mas foi mais ou menos isso que tentei entender do texto.

Um abraço!

Giselle disse...

"desaparecer, mas permanecer aparecido". Quando eu li isso me veio logo na cabeça as formas de relacionamento do mundo de hoje. Realmente vivemos desaparecendo e o que significaria isso? Na minha leitura é deixar de ser nós mesmos e tentarmos ser o outro. Estaríamos aparecendo no momento em que ser o outro há uma maior possibilidade de ser mais aceito.
Sendo mais clara, muitas vezes deixamos de fazer algo para não ser reprovado,para não estar desaparecido.
Deixamos de ser nós mesmos para poder aparecer.
Não sei se me entenderam só tentei pensar em algo mais prático e que nos deparamos sempre.
abçs.

Marcel Santiago Soares disse...

Eu concordo com Giselle sobre tornarmos mais parecido com o outro. Mas não sei se é pela via do ser aceito, acho que por esse caminho tem muito de relações grupais que não estou disposto a adentrar agora.

Prefiro pensar que a discussão é do sujeito precisando se identificar com outros. Aparecer um pouco para poder olhar-se e ver no outro algo que seja similara ele. Tornar-se assim humano.


Enfim. Mas agora começo a acreditar no que Giselle falou. Bem, da proxima vez vou pensar antes de escrever.

De qualquer forma, isso tudo me lembra mascaras!
Algum dia, quem sabe volte e complete o pensamento.

Dani disse...

Quando li o conto, o que me deixou mais intrigada foi a forma como o Honoré desaparece e reaparece – é preciso estar diante do medo para se despir e assim fugir; por o casacão e os chinelos quando a ameaça já não se faz mais presente e seguir em frente. Então pensei poder fazer uma analogia com aquilo que chamamos de identidade... como estudantes psi, sabemos que esse conceito é bastante problemático. Se superarmos esse problema assumindo a possibilidade de possuirmos várias personas podemos construir até um pensamento coerente para compreender essa possibilidade. Entretanto, na minha opinião, inclusive essa última consideração fica abalada: acredito que Honoré foi pego pelo seu inimigo no final do conto e isso me fez pensar que diante do caos – e porque não do medo – acabamos por descobrir que somos possuidores não de uma, muito menos de varias personas, mas que simplesmente elas que nos possuem, as circunstâncias é que nos (re) constroem constantemente. Honoré, pra mim, representa alguém estrategista, que tenta lidar com esse jogo de aparecer e desaparecer. Relembro então, um trecho de “Cidade dos Sábios”:
“As forças do mundo não cabem todas numa pessoa; o mundo está cheio delas, diferentes, contrastantes, de várias intensidades. O mundo não tem paz, ele é nervoso, finito, inventado e reinventado a todo o momento. As forças são de várias intensidades; jogue com elas teça-as, misture diga sim e as guerras serão sempre diferentes, surpreenderão o inimigo e o perigo não te deixará inerte.(...) A paz desses homens faz o mundo ser igual a eles, completo, solitário ou incompleto quando os ruídos do inesperado os desconcertam. Cuidado com eles, poderão te converter em nome, identidade ou vazio. Desconcertados, pedirão, pedirão feito famintos algum alimento e no rosto carente só existirá tristeza. Cuidado com eles nesses momentos são perigosos, apesar da fraqueza.” (p.77)