Um certo artista plástico disse certa vez, em um documentário que trazia a arte produzida no Amapá algo mais ou menos assim: Eu sou artesão, sou reconhecido e me reconheço assim. O que faço é bastante influenciado pelo que vivi e vi do meu pai e avô. Eles eram artesãos, mas não se reconheciam assim, pois o que faziam tinha uma utilidade prática, eles utilizavam a arte deles no dia a dia sem perceber que o que faziam era também arte. Para eles, arte era aquilo que se fazia para pendurar na parede.
Estas não eram suas palavras exatas (deixando bem claro isso), porém a idéia é a mesma. O que na verdade diferencia o fazer do nosso amigo arteiro do fazer dos seus ascendentes? Ele também trabalha entalhando a madeira e detém o conhecimento técnico sobre sua matéria-prima - aprendizado lento e experienciado desde a infância -, e possui um cuidado com aquilo que faz. O documentário não tem essa preocupação de contrastar os dois fazeres artísticos, deixo essa questão pra gente.
Então aqui estamos nós, a Josefina (cantora e ratazana), e nosso artista da madeira. São esses três pontos que gostaria de levantar, o primeiro sobre o artista, sua arte e aquilo que a qualifica como arte e não um fazer cotidiano (questão tratada levemente em aula). O segundo e o terceiro tratarei de explicar.
Qual a Josefina que aparece no co(a)nto do Kafka? Talvez propositalmente - sabe-se lá o que se passava na cabeça do escritor quando a fez -, talvez sem querer, porém gosto de inventar uma Josefina com vida própria que, essa sim querendo, fazia a Josefina cantora notória e desejava torna-la única, apagando por completo os signos da josefina (com j minúsculo mesmo) que se misturava ao povo dos ratos e não aparecia. A josefina ofuscada em meio a multidão apressada do povo dos ratos; esta era a josefina que trabalhava duro, como todos os outros da sua raça, que pagava impostos, possuía necessidades fisiológicas - inclusive o chiado -, assistia tv, trocava a fralda dos filhos e talvez até esquecesse de tudo isso fazendo compras no supermercado, era uma josefina sem rosto, um tanto cara de multidão. No entanto havia a Josefina que pode parecer a mesma, mas não é. Esta fazia-se notar por seu chiado, que como diz o conto é um chiado comum, mas ganhava ares de canto, de arte; esta Josefina luta para não trabalhar, pois sua arte a cansava em excesso; lutava para se destacar e desligar do povo dos ratos, criando ao seu redor ares de superioridade. Imagino esta Josefina como um símbolo daquilo que criamos em volta daqueles que aparecem ou tentam aparecer; é a Josefina que aparece no Big Brother Brasil (que começa hoje por sinal), a Josefina que aparece na revista Caras, que faz a sua imagem maior e mais importante que sua arte; esta Josefina não defeca.
O terceiro é só uma provocação sobre o nosso próprio fazer. Como psicólogos, ou mesmo extrapolando para o modo de existir de cada um. Seria possível pensar a arte como política do nosso fazer psicologia? Ou a psicologia como fazer cotidiano implicaria algum tipo de repetição necessária até mesmo a sua sobrevivência?
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4 comentários:
João, se o tempo andou mexendo com a gente mais que com outros, não podemos esquecer que a felicidade é uma arma quente. Mas você não é Lenon e eu não sou Belchior. Somos "j"osefinas. para essas a psicologia pode se fazer em arte, como em lenon e belchior. Isso tentar articular suas duas últimas questões. Ficarei nelas e serei breve. Essa coisa dos símbolos quimiquizou a vida. Matéria, matéria, matéria. Até as pessoas de letra minúscula perceberam a necessidade de adorar um maiúsculo, mesmo sabendo que esse é tão passageiro quanto elas (nós).
O diagnóstico parece rápido e fácil, mas não é. Importa a experiência. É nelas que se encontram os problemas e os encaminhamentos. abraço!
Ao ler seu texto Joãozinho e seu comentário Kleber me lembrei de umlivro que estou lendo. Ele em um pequeno trecho, tratou, indiretamente, desta questão do minúsculo e maiúsculo, um dos trechos do livro que mais me chamou a atenção, inclusive.
Quando a gente pensa em maiúsculos lembramos de Drumond, Einstein,... e esquecemos de Hitler, por exemplo... ele também foi um maiúsculo não?
Ainda teria muitos e muitos questionamentos mas ficaria muito longo e sinceramente ainda prefiro o face à face... enfim, caso alguém tenha disponibilidade, a gente pode sentar e conversar sobre a leitura da leitura e mais e mais questionamentos surgirem :]
Bom é isso, fica aí o convite
Beijos
Sobre as questões que você colocou João:
A primeira: Acho que o que diferencia o fazer do artesão e o dos seus ascendentes é o significado que é impresso no fazer artístico, parece que varia de acordo com as marcações valorativas de cada contexto; num livro que li (não lembro ao certo o nome, mas acho que o segundo nome do autor é Coli) dizia que,por exemplo, antigamente, obra-prima era aquela que coroava o aprendizado de um ofício e testemunhava a competência do seu autor, ela era assim classificada a partir de critérios precisos de fabricação por artesãos que dominavam perfeitamente as técnicas... hoje os discursos sobre a arte é que estabelecem os critérios (distância no tempo, no espaço, distanciamento da função utilitária, função social, etc., etc.), o que, pelo pouco que pude acompanhar em algumas leituras, parece ser bastante problemático e muitas vezes inconsistente e fluido por causa dessas variações no tempo (porque alguns objetos, desenhos, etc. são considerados arte hoje e no passado não?). Acho que é como acontece no conto... o canto Josefina é cultuado talvez pelo significado que o povo atribui a ele, canto que aos poucos vai perdendo esse sentido pelo que entendi – analogicamente penso que isso representa essa fluidez mesmo do discurso sobre a arte.
A segunda: Não compreendi...=)
A terceira: Eu acho que o artista é o único que está livre das amarras das lógicas discursivas...independentemente, da técnica, dos críticos, dos critérios (tudo isso pra mim é balela de quem quer sistematizar até isso; arte pra mim é aquela que é capaz de emocionar, atingir-nos de alguma forma e que potencialmente, por isso, realiza operações de desconstrução), o artista é livre...o trabalho na minha opinião é puramente imaginativo e criativo. Por ter esse caráter, é difícil pensar numa prática que leve em consideração o sentido da arte – o meu sentido – (os conceitos de que depende são incompatíveis com a proposta que entendo ser da arte). Pela Psicologia podemos ver onde estão as amarras... e é nesse sentido que a arte pode usar a Psicologia e não o contrário. É um exercício para os psi inconformados, e que não querem aplicar testes o resto da vida =)
"Menino,fique quieto!Não faça ARTE!"
Arte é movimento,é criar,é sair do ordinário,é não ser comum...
Apesar da falta de técnica da Josefina,seu chiado era canto. Canto por que ela se destacava na multidão,proporcionava algo novo no meio de tantos seres facilmente relacionados à sujeira,à inferioridade,ao pavor e a uma vida curtíssima:os homens-ratos...
Talvez o canto da Josefina tenha se calado por que começaram a aparecer questões que a aproximavam do cotidiano(como o fato dela reclamar sobre ter que ir trabalhar e como isso fez com que suas apresentações fossem modificadas e tal...)-arte é ruptura com a realidade vigente!
(Por que Picasso ficou famoso?As suas obras cubistas foram totalmente inusitadas...E Einstein?Quem poderia pensar alguma vez que o tempo e o espaço são relativos?Quem?)
O grande problema imbricado com a Arte é o reconhecimento. Nem todos que fazem arte o conseguem,muitos só conseguiram pós-morte: Van Gogh,Mozart,Bach,Vivaldi e lá vai...Mas será que precisa disso?Uma coisa é fazer arte,outra é viver das Artes...
Juntando isso tudo,daí vem a Psicologia: será que dá pra fazer arte com ela?
Podendo dizer que a arte seria uma Ética(logo que corresponde a uma postura em relação a um fazer frente a realidade sócio-político-ideológica),o psicólogo compactuando com uma prática que promova aberturas,posso dizer que a Psicologia resultaria numa produção artística.
E quanto ao reconhecimento desse status psi?
Volto ,então ao ponto sobre fazer arte e viver das Artes...
Nem todos que vivem da Arte fazem arte.Ex.:Mozart vivia de fazer músicas por encomenda,mas a sua arte era produzida a partir do momento que introduziu novas formas de orquestração para suas óperas...
Aproximando do campo psi,a mera repetição de técnicas psicoterápicas é uma forma de sobreviver da arte produzida pelas vertentes psicológicas: o psicodrama,a psicanálise-de quais,Moreno e Freud ficaram famosos. Apesar de seguir linhas teóricas,fazer a própria forma de terapia é fazer arte...e não é preciso que necessariamente tenha que haver reconhecimento para que seja classificada como tal...
Creio que os "grandes artistas" sirvam de referencial e que a partir destes sejam feitas mudanças ,reviravoltas e tudo mais que possa ocorrer...
Era isso,se ficou alguma coisa incompreensível é só dar um GRITO...
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